Quem conhece Anne Schneider - mesmo que superficialmente - sabe que é uma pessoa singela e suave, características que repercutem no instrumento de sua predileção: O polifônico órgão de tubos. Tido como o mais pomposo e solene dos instrumentos em todos os tempos, por conjugar teclados e pedais, Anne fá-lo vibrar a sua maneira, aliando técnica e sensibilidade. Talvez porque, na mulher que é, ainda repercutem ecos da menina que foi, devotada ao seu mestre predileto, o pai Leo Schneider.
Com a produção musical de Flávio Oliveira, o CD A Arte da Organista Anne Schneider é a primeira gravação de órgão na região sul do país, como destaca a intérprete. Mas não apenas isso, ele é gravado no órgão Rieger opus 2733 ( de 1936) da Igreja Martin Luther, onde Anne é organista, concertista e docente. Tudo parte de um rito que prioriza o essencial na vida da musicista.
E como tudo o que é importante não poderia ser omitido, o repertório é uma surpresa, misturando sacro, erudito e popular; homenageando autores brasileiros e gaúchos de diversas épocas e tendências. Visto sob este prisma, o disco parece não ter um projeto específico. Puro engano ! O projeto diz respeito à musica e à preservação de um dos instrumentos de maior complexidade , que por isso mesmo no Rio Grande do Sul já andou à beira da extinção.
Repertório surpreende.
O disco abre com peças do paulista Amaral Vieira, alternando tendencias litúrgicas e barrocas respectivamenteno Introito e Toccata. A seguir, a magnificência de Villa-Lobos em Ária da Bachianas n°5, com o arranjo de Anne Schneider. De Furio Franceschini ( italiano naturalizado brasileiro ), a organista interpreta Fantasia sobre um Aleluia, um belo improviso do autor, criado ao final de uma missa de Páscoa. O carioca Octávio Bevilacqua está presente através de uma bela canção de ninar
Do gaúcho por opção, Bruno Kiefer, a modernidade das harmonias faz-se presente em Reflexões, Meditativo e Fuga, sua única peça organística e provavelmente a última obra escrita. Uma peça dedicada à própria Anne Schneider em 1986, pouco antes da morte do autor. Do roteiro constam ainda duas Aves Marias, uma delas do gaúcho Antonio Corte Leal, outra do nordestino Catullo da Paixão Cearense. Esta última é na verdade um chorinho, em que a intérprete mostra toda sua técnica no andamento surpreendente rápido, considerando-se a complexidade do instrumento.
© 2006-2009 Anne Schneider | Atualizado em 05/2009 | Jéssica Beus